[Esse texto acompanha o episódio 450 do Viracasacas, ouça aqui.]
No fim de agosto, apareceu no meu feed de podcasts um “Aviso Urgente” feito pelos amigos do Viracasacas Podcast. Era um áudio de alguns minutos explicando que o Spotify havia removido algumas dezenas de episódios do podcast sem uma explicação clara. Também no fim de agosto, diversos episódio do podcast da publicação o Joio e o Trigo também foram derrubados na mesma plataforma sueca.
A explicação oficial e genérica para ambos os casos foi desrespeito a propriedade intelectual. Vamos ignorar nesse texto o eventual mérito dessas alegações, nossa posição sobre propriedade intelectual já deveria estar bem clara, e nos concentrar em arquitetura e poder.
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A mídia Podcast foi criada por um VJ da MTV (isso mesmo) e tem como parte fundamental da sua arquitetura o protocolo RSS (protocolo que tem como co-autor o Aaron) que garante a interoperabilidade entre diferentes aplicações.
Diferente de vídeos na internet que já se popularizaram em plataformas específicas, podcasts assim como blogs se popularizaram através de arquiteturas de compartilhamento abertas. O que tornou os dois formatos (texto e áudio) mais difíceis de serem capturados pelas big techs.
Sendo esses dois formatos mais resistentes, acompanhamos investimentos pesados das Big Techs para tentar capturá-los: por isso você não pode inserir links no seu Instagram, o Spotify pagou 250 milhões de dólares para ter o podcast do Joe Rogan exclusivamente na plataforma, e o Spotify também pagou 120 milhões para comprar o anchor[.]fm.
Focando no Spotify, são esses investimentos que fizeram ele se tornar a plataforma escolhida por mais de 90% dos ouvintes de podcasts na América Latina. E com esse monopólio virtual de ouvintes, começam as estratégias de lock-in.
>> Vendor Lock-in ou “aprisionamento tecnológico” em português é a estratégia de criadores de produtos de tentar garantir que seus usuários não possam trocar facilmente para concorrentes. Isso varia desde impressoras HP não funcionaram com tintas de concorrentes até você não poder sair do Instagram porque todos os seus amigos estão lá. Leiam “O pão não autorizado” do Cory Doctorow para entender até onde isso pode chegar.
O movimento que vimos mês passado parece um teste do quão aprisionadoes estamos na plataforma do Spotify, quase uma demonstração de poder. O uso de leis de direito autoral em plataformas de forma desbalanceada geraria todo um novo texto, mas me parece que nesse caso especialmente era menos sobre copyright mais sobre “até onde podemos ir?”.
Fico feliz que o Viracasacas não perdeu seu conteúdo antigo graças a ouvintes que mantinham cópias do conteúdo. Um salve pra toda comunidade de Lost Media. Mas o arregaçar de mangas da maior plataforma de áudio deveria acender um alerta em todos os produtores de podcast – especialmente os que estão em posições mais radicais.
A gente deve fazer propaganda com as Big Techs, mas jamais devemos nos organizar contando com as Big Techs.
